sábado, 16 de fevereiro de 2019

Um pedacinho da infância...

Por  um tempo, por alguns anos, eu tive um pai, desses de fato, não um pai só de copular (tb tive um calhorda desse...), mas um pai de dar afeto, amor, ensinamentos…Tive momentos felizes na minha breve infância junto de minha mãe, deste pai de alma e coração e de minhas irmãs.

A felicidade não estava aqui. Ficava em outra cidade, ela morava numa vila, numa casa com quintal, e eu com ela rodeada de crianças a compartilhar brincadeiras, festas de ruas na vila, histórias perto da fogueira, andar de bicicleta, rolês de patins, treinar o que eu seria  no futuro brincando de escolinha...
Descobri o valor da amizade, a sensação de ser criança em segurança naquela vila, estudando na melhor escola do mundo (ao menos para mim, sempre será a mais importante de todas).

Breves momentos felizes que muito significaram e significam, que delinearam minha essência, que são refúgios, momentos bons aos quais busco me remeter quando preciso buscar abrigo em mim.
Nada retira da pessoa suas vivências, suas experiências que são únicas. Apenas eu sei o valor que cada coisa que vivi teve a mim.

Eu nem sabia que teria irmãs. Mas elas vieram e foi muito bom. Tínhamos crianças por todos os lados ali.

Mas quando éramos retiradas do "porto seguro", tudo de mal ocorria e a vulnerabilidade era plena.
Uma mente de criança jamais pode compreender o que é uma briga de casal, nem por que elas acontecem. Muitas vezes, não víamos nada. Éramos poupadas de tudo, preservadas, as brigas ficavam entre eles, e logo se resolviam.
Mas ao estar fora dali a gravidade tomava outras proporções. E o que minha mãe pensava ser refúgio, era armadilha. A família em quem ela buscava apoio, na qual achava que tinha, de fato, não tinha, e seu próprio pai foi a desgraça de toda a sua geração e a maldição das que viriam. Antes tivesse se assentado ali mesmo, se resolvido por telefone, arrumado uma psicóloga quando discutia...
Mas ao buscar abrigo na mãe que vivia seguindo cegamente o marido, sendo a casa dele, casa do pai dela (meu avô materno), tudo se arruinava.
Nada NUNCA deu certo na casa do pai que amaldiçoa a própria filha, de um misógino.

Mas lá na vila que eu amava, onde ela muitas vezes sentia saudades  da
mãe dela, e onde foi tb feliz, ela teve um momento de grande amargura que jamais sairá de minha memória, que comoveu a muitos com sua força e fé, com um AMOR que só uma mãe pode nutrir.
A outra filha que tivera sofreu um acidente caindo da escada e os médicos disseram que ela não teria mais os dentes, que era algo grave...era muito pequena, uma bebê ainda…os dentes novos, e mesmo a bebê já começando a falar, não falava mais e isso retardaria sua fala. Após isso, só jorrava sangue, uma hemorragia absurda, que exigiu cada gota de esforço que uma mãe é capaz de dar.
A mãe que já não dormia, que só vagava, como zumbi, com uma filha nos braços, toda dolorida, e com toalhas no ombro, encharcadas de sangue. Se dormisse, a menina poderia sufocar e perder a vida, e essa culpa ela não iria carregar...
Não, ninguém revezava com ela, por mais que pedisse.
Andava dias e noites, e começaram a achar que estava delirando. Ela falava em Deus, em milagre, que pagaria a promessa se tivesse a certeza de que sua filha seria plenamente curada. Ninguém acreditava.
Eu não tinha o que fazer. Só assistia a tudo, impotente, triste, e depois, no outro dia, me chamavam pra brincar, pra "esquecer" um pouco aquela visão constante. Eu ia. Mas quando retornava, lá estava uma mãe que só orava e chorava com uma filha no colo há dias, semanas…Ela não a largava por nada, mesmo fraca e sem forças.
Se eu tivesse uma mente mais evoluída, talvez tivesse feito algo a mais para suprir, mas eu era limitada…Eu dizia que tudo ia dar certo, pra ter calma, não sei se isso ajuda em algo...

Ninguém quis assumir a culpa pelo ocorrido, e culpabilizaram a minha própria mãe por não estar por perto quando a filha caiu…Uma lástima.

Minha mãe tinha pânico de dirigir (eu tb não gosto muito…), mas ela temia passar por pontes, era uma fobia. Ela achava que nunca iria passar por uma ponte, então, preferia evitar dirigir para não encontrar uma pelo caminho…

Mas ali ela dizia:"Eu pego o meu carro sim, e vou dirigindo sim até Aparecida do Norte sim, pela minha filha sim, eu enfrento qualquer coisa sim, porque eu sei que se eu enfrentar, ela será curada sim. Isso é pra me testar? Eu vou fortalecer minha fé!"

E ficava assim.
Ela não pegava no carro há muito tempo e só quem dirigia era nosso pai.
Então ela teve um sonho. Podem achar que seja um sonho qualquer de quem está muito a pensar em algo. Mas para ela que sabe o que sentia e o que estava vivenciando não era. O sonho foi lúcido e ela o contou. Ela disse que era chegado o momento de ir pra viagem até Aparecida do Norte. Ela não iria sozinha, mas no carro não levaria ninguém que soubesse dirigir, não teria ninguém que a socorresse em caso de algo ocorrer…
Foi minha primeira e única viagem de carro com minha mãe.
Ela levou a sogra, que eu tb chamava de vó no banco da frente (essa vó era crente), e atrás estavam as filhas.
A minha irmã não estava curada ainda, não naquele momento, ainda não falava, ainda não tinha dentes, ainda babava, com sequelas do acidente na escada…Mas ela "sentiu" que aquele seria o momento e se nutriu de coragem e certo receio e fomos.
Ela rezou no carro antes, pediu proteção a Deus e a padroeira Nossa Senhora Aparecida e seguimos…
Ela só olhava pra frente, aflita ao dirigir, parecia um robô. A vó tentava acalmar.
A viagem foi longa.

 E sim, havia uma ponte…
Quando ela surgiu, o carro parou de supetão, e acordei. Vi que era uma ponte a frente. Não muito longa. E ela começou a entrar em pânico.
"Não tem como voltar agora. Você consegue. Já estamos aqui. É só ir devagar." Disse a sogra.
Foi um tempo nisso. Um tempo de respirar, de chorar, se recompor e seguir, pois sabia que não tinha volta e que o único caminho a seguir era adiante.
Ao passar a ponte, nova parada. Agora para chorar por ter conseguido o feito improvável. Mais uma oração de agradecimento que a fortaleceu. E seguimos.
Quando chegamos, fomos direto para o local onde se coloca os nomes para pedir os milagres. Ela acendeu velas enormes, se ajoelhou, ficou lá um tempão e eu observando o local, admirada com tudo ali, tudo novidade para mim.

Eu desde então, nunca retornei aquele local.
Ela tinha pressa de voltar antes de escurecer.
Fomos até a catedral, ela pediu para que o padre abençoasse a filha, ungiu com água benta,  e fez questão de comprar lembranças de que esteve ali, colocando no carro itens de proteção. Tinha terço, imãs de Nossa Senhora, cartilhas de oração…e retornamos.
Só assim, ela foi retornando um pouco mais a vida, crendo que o milagre da cura viria, que ela já teria pago tudo, e que faltaria só receber o milagre no momento que devesse ser provido. Ela tinha muita fé.
Poucos anos adiante, ao retornar a casa do pai dela,  desgraçamento ocorreu comigo, e o dilema foi tão intenso que não houve outro jeito de salvar a família (aos demais​ membros da família) a não ser tirando a própria vida, em ato de desespero, pois toda saída seria trágica e ela buscaria a menos trágica…

O que uma mãe não faz pelos filhos!
Não existe nenhum limite que determine até onde uma mãe possa ir e agir por amor a um filho.
Uma mãe serve a 10 filhos, mas 10 filhos não servem a uma mãe porque filho pensa como filho, não como mãe. É comum a incompreensão e a ingratidão de filhos, filhos guardam mágoas, mães não!
Mães amam incondicionalmente.
Literalmente, elas dão a vida por seus filhos.
Após sua partida, os dentes de minha irmã nasceram, lindos e fortes. A cura foi plena mesmo. Ela não estava aqui para contemplar. Mas sempre soube que isso iria ocorrer.
É comum mães sempre terem mais fé que os filhos… Não que seja uma regra, mas é mais comum. E filhos, guardam poucos momentos bons e cultuam muitas coisas ruins, em geral, que não compreendem, por isso ainda ficam ali dentro existindo.
A compreensão exige esforço, empatia, vontade.
Existem várias versões de um fato e cada um sente e vivência a seu modo. Buscar compreender aos outros e respeitar as ações alheias é fundamental para o crescimento espiritual de todos os humanos.

Ainda sobre essa pessoa com a qual me pareço tanto que é minha mãe... Incrível como ela sempre dava credibilidade às pessoas também. Mesmo vendo a maldade, ela não acreditava…o pai sendo misógino, violento, preconceituoso, patriarca da família, dominador, ela acreditava q era amada…mesmo ele dizendo que "queria um filho homem" e assim, quando ela teve seu filho, este foi retirado dela e ele não permitiu que ela levasse pra morar com ela e o criou como se ele fosse o filho dele.
Disse q garantiria o futuro dele, que ele seria "o filho q ele não teve" e de fato, ele o tratou em berço de ouro e minha mãe teve mais três filhas…eu a seguir, plenamente amaldiçoada por ele.
Ela vinha na casa do pai tb pra ver o filho, mas só podia ver, não podia sair com ele…o pai dela não deixava.
Como pode ela aceitar essas condições. Estes tempos de outrora me revoltam... Mas os tempos atuais tb tem me revoltado.
E o filho dela que virou filho de meu avô, que não foi criado como meu irmão, saiu bem do jeito dele, misógino, preconceituoso, abominável, indiferente ao resto do mundo, e claro, sem amor algum a mãe a as irmãs. Lamentável.
Ele teve boas escolas, fez cursos diversos, virou um ícone egocêntrico de saber inútil, para a que a "mulher impura" que teve que ralar nas escolas públicas da vida, correndo atrás de bolsas de estudo ter de sustentar a todos até hoje e sendo mal falada, criticada. Pois é. Cumpro as funções, vivo conforme a maré, deste mundo não espero Justiça dos homens, pois sei que tenho a de Deus. E sou plenamente abençoada por ela e sou MUITO grata por isso.
Posso deitar minha cabeça no travesseiro sentindo muitas coisas, menos culpa, remorso, dor na consciência. Sei que tenho feito  o máximo que posso dentro das limitações que a vida me colocou. Eu sendo mulher numa família onde as mulheres sofrem tanto…
Fora que sempre foram racistas... Até meus amigos negros são mal falados e eu criticada apenas por tê-los como amigos. Imaginem se minha mãe tivesse tido filhos com um negro e eu fosse essa mistura…sofreria ainda mais. Ela gostava do cantor Luís Melodia que meu avô abominava. Lembrei disso. Ela era inconformada com as injustiças também, por isso foi ser assistente social, achando que poderia fazer um pouco de diferença nesse mundo.
Meu avô era índio, nem por isso abomino os índios. Mas tenho abominado aos homens, pois são raridades os que seguem os preceitos de bem e conseguem evoluir neste mundo, com respeito e amor ao próximo. Exalto aos bons. Tudo o que o mundo prover de bom, deve ser de conhecimento da humanidade, já dizia Einstein e concordo com isso. Não é questão de não falhar, isso todos fazem, mas de ser bom em essência, de ter a capacidade de se arrepender, reconhecer e reparar a maldade que geram e de buscar ser melhor. Essa virtude é para poucos, uma virtude raríssima.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Amor de mãe é inigualável

Se meu filho for gay, vou amar meu filho.
Se meu filho for celibatário, vou amar meu filho.
Se meu filho for revolucionário, vou amar meu filho.
Se meu filho for ateu, vou amar meu filho.
Se meu filho for cristão, vou amar meu filho.
Se meu filho tiver êxitos, vou amar meu filho.
Se meu filho tiver fracassos, vou amar meu filho.
Se meu filho fizer maldades, vou amar o MEU filho, que fique claro, amar ao meu filho NÃO significa concordar com tudo o que ele faz na vida, com os erros e escolhas dele!
Jesus ama o pecador e abomina o pecado.
O que eu repúdio, continuarei repudiando, mas seguirei sempre amando ao meu filho. Respeitar as escolhas dele (e as consequências que elas trarão a ele) faz parte desse amor.
Saber dizer não quando ainda é fase de impor limites, faz parte do amor.
Saber que eles partem quando precisam aprender os sabores e dissabores da vida, faz parte do amor.
Ser tolerante faz parte desse amor.
Ter compaixão faz parte do amor.
Não existe amor sem liberdade, sem respeito, sem zelo, sem tolerância, sem a parcela de sofrimento necessária também. Em sua completude, o amor se faz com tudo isso.
Não aceito as condutas errôneas das pessoas, mas cada um tem sua própria trajetória a trilhar e não interferir no livre arbítrio, aconselhar,  precaver, é atitude de quem ama.
Mas não se priva ninguém do mundo. Cada um vai viver o que tem de viver.
O amor segue com a gente sempre.
Amor de mãe não se esgota, é infinito, tem fonte divina, não tem igual, é incomparável e não deve se contaminar pelo mal, tem de ser zelado e cultuado constantemente, de perto ou de longe, pois ele está em quem o carrega. O amor de mãe está na mãe, não no filho. O amor de filho é outro tipo de amor, também é amor, mas não é como o de mãe nem jamais será.

                               ***

Este espaço é meu, para meus escritos, para qualquer coisa que eu queira dizer, expressar, manifestar.

Dedico ao meu filho Dengoso, pois o compreendo em toda sua dor e revolta, em todo seu sofrimento e prostração, e creio nas muitas voltas que o mundo dá.

Após eu ter me tornado mãe, conpreendi muito mais a fundo a minha mãe. Sei que meu filho não será mãe jamais e amor de pai também não é como amor de mãe, mas, cheguei a falar coisas amargas quando era uma menina a minha mãe, sem a compreender nada, pois eu tinha a minha própria mentalidade limitada, fui injusta em minha revolta, no meu crescer, e a compaixão de minha mãe sempre foi a divina, ela sempre me amou em todos os momentos da  sua breve vida e sempre buscou fazer o máximo que pode pelo bem dos filhos. Compreendo que nada é mais importante para uma mãe que os seus filhos. E que o "deixar nas mãos de Deus" depende de muita fé, de saber que Ele sempre zela pelas mães.




quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O homenageado sabe quem é


Em teu nome conjugado
Fez-se a paz que, de meu lado
Há muito, não queria estar.

Só de ter lhe encontrado,
Alterou-se o meu estado
E tudo em mim fez mudar.

Num brio sem muita semelhança
Encontrei a esperança
Que não esperava ter.

Notei mais coincidências
Indo além das aparências
E assim pude lhe ver.

Nem tão diferentes somos
Dos demais que também amam
Sem que conta disso dêem.

De ideais que nos permeiam
Talvez faremos nosso enredo
Apostando num acerto.

Acertado foi o encontro
Do destino entre um e outro
Já selado de antemão.

Parodoxando o tempo
Fez notar um elemento
De fé estranha então ali.

Desencontros casuais
Se fizeram cruciais
Para tudo suceder.

De outro jeito diferente
Não seria evidente
Tal acaso ocorrer.

E mais uma vez num canto
Onde o canto se faz centro
O som foi nos envolver.

Apostando no incerto
Num sonho que se acha certo
Eu nem quero mais sonhar.

Mas melhor do que a utopia
Do que possa vir a ser um dia
Seria poder realizar

Agora e enquanto for possível
Dizer o que está contido
Sem sentimento reter.

Me revelo por palavras
Declarando-me encantada,
Envolvida por você.

Pode querer dizer nada
Pode parecer piada
Ou peça do coração,

Mas por hora é o que move
Que motiva e me consome
E sinto que isso é bom.

Não precisa dizer nada
Só receba a já esperada
Investida da razão

Com meu apreço a ti e doada
Nem tão racionalizada
Por brotar-me do coração.

Permita-se a experimentar
Outras coisas, apesar
De sentir eu te amar
Pois isso é certo que o concreto
Do que houve vai acabar
Mesmo antes de se edificar.

Será mesmo passageira
Qualquer calma que não queira
Se manter só em afeição,

Pois ao ceder espaço ao tênue
Elo sutil do desejo,
Transmutando-se em beijo
A paz pos-se ao chão.

Livre arbítrio do momento
Ceder ao acalento
Do carente coração

Também tem valor pra alma
Esse fogo que se apaga
Enquanto chama acesa for.

Tudo sempre é relativo
E te digo, meu amigo,
Desculpe agora por me expor.

Mas sentindo no momento
O sentimento vira texto
E se eterniza em você.

Repleta de incertezas
E certa que duvidará das proezas
Que possa ocorrer,

Vou findando aqui por hora
Sem encerrar nossa história
Que ainda está por se escrever.

Resultado II Concurso de Poesia SPA

http://RESULTADO DO II PRÊMIO DE POESIA SPA 2018 - Tema: AMIZADE

MODALIDADES:

INFANTOJUVENIL GERAL
1 – “Anjos” - Maria Irmany de Sales Ribeiro, São Paulo / SP
2 – “Intimidade” - Tainara Silva Almeida, Diamantina / MG
3 – “A bênção, Conrado” - José Rodrigues do N. NetoRio de Janeiro / RJ

Anjos – Maria Irmany de Sales Ribeiro (Primeiro lugar)

Meus anjos têm nome, idade e sonhos.
Têm nos céus a crença e na Terra, a esperança. 
Descobrem o meu sorriso e o fazem eterno, 
já que a eternidade já não é mais um sonho para nós.

Meus amigos são o meu alicerce, o meu abrigo.
A morada do meu carinho, a liberdade em meu coração.
Desejo que o tempo pare por um segundo
para que eu os tenha para sempre ao meu lado. 

Não sinto mais a chuva da amargura,
o vento frio da tristeza não me traz arrepios,
pois quando o brilho da fé renasceu em meu âmago,
percebi que nunca mais choraria com a solidão.

Caí no abismo dos rancores e dos suplícios,
mas ao longe escutei o ruído das risadas ternas.
Os anjos me resgataram, me iluminaram. E nunca mais vivi sem razão. 
  
Intimidade – Tainara S. Almeida (Segundo lugar)

Diante de ti, despi minh'alma.
Convidei-te a penetrar meus sentimentos.
Mostrei-te meu lado obscuro.
Revelei-te segredos obscenos.
Permiti que adentrastes meu íntimo.

Ofereci meu colo para que descansasses.
Dei-te meu ombro para que chorasses.
Fiz de ti meu porto seguro.
Juntas, vencemos o mundo.

Hoje olhas por mim aí de cima.
Aqui embaixo, choro tua ausência.
Mas sei que entre nós nada mudou.

Pois amizade não é presença.
É um estado de permanência.
É sobre quem foi, mas no peito ficou.

A bênção, Conrado - José Rodrigues do N. Neto (Terceiro lugar)

Da vida carrego o abraço tenro,
Da criança nascida em inocência.
Sopro em pureza, recém em tempo,
Amizade utópica: leveza na essência.

Afaga-me, Ser, ouça-me em sua derme.
Ó amigo sincero, com qual feliz lapido,
Cintilante amizade. Mente que aquece.
O Ser genuíno; sincero monge, sabido.

Corroer-te-ás neste mundo, devaneado.
Companheiro, não siga! Pra que crescer?
Questiono-te: serás o mesmo, Conrado?

Tu mudaste, confesso, vi-te morrer.
Tua amizade, ó anjo levado, guardo,
Tu em Céu, eu na Terra: um só Ser.


  
ADULTO GERAL
1 – “Meus amigos” - André Felipe Soares Foltran, São José do Rio Preto / SP 
2 – “Ode Alexandrina Victorina à amiga ampulheta”- Carlos Brunno S. Barbosa, Valença / RJ
3 -- “Amizade de luz” - Priscila Pettine, Bela Vista / SP
4 – “Minha amizade” - Sérgio Bernardo, Nova Friburgo / RJ
5 – “Saudosa amizade” - Márcia Jáber Juiz de Fora / MG



Meus amigos - André Foltran (Primeiro lugar)

Sobre o tema amizade outros cantaram
a comunhão das almas. Mas eu não:
meus melhores amigos se mataram
— ficaram uns em decomposição.

Todos os meus amigos fracassaram,
não chegaram ao primeiro milhão.
Os filhos que tiveram não vingaram,
frutos podres de estranha geração.

Meus amigos, nunca eles se casaram
(nem fui eu a quebrar tal maldição).
Toda noite, os que não suicidaram

vêm à minha decrépita mansão
esquartejar a vida — acho, preparam
um monumento à Grande Depressão.


Ode Alexandrina Victorina à amiga ampulheta-Carlos Brunno S. Barbosa (Segundo lugar)

Saudosa ampulheta, meu remoto relógio
de areia das praias da Região dos Lagos,
cujo escorrer para tantos é implacável,
venho nesta ode negar-te o ar de necrológio.
És comparte longeva das terras que afago;
como poeta, oferto a ti adjetivo amável:
és amiga da arte, a ela dás todo apanágio,
em teu fluxo sossegado de tempo eu vago
e divago essa efemeridade infindável.

Fluminense ampulheta, ancestral companheira,
sócia das areias de São Pedro da Aldeia,
ao teu lado, é mais suave a brevidade,
por isso peço-te: aceita esta ode praieira
em homenagem à nossa eterna amizade.


Amizade de luz - Priscila Pettine (Terceiro lugar)

O carinho recebido em plena paz,
Ao seio d'alma ansiosa na amargura,
É semente que bom fruto traz,
É centelha que em sol se transfigura.

Semente fértil, de virtude rara,
Quantos frutos por aí produz...
Aprumando a mente de qualquer amarra,
Um amigo salva-lhe trazendo a luz.

Bendito aquele que tão fortuito faz
Da amizade, a exemplar semeadura,
Aos lugares de treva pertinaz
De onde se esparge a luz que mais fulgura.


Minha amizade - Sérgio Bernardo (Quarto lugar)

Não vou alimentar sua tristeza
dando-lhe mágoa e solidão na boca.
Nem concordar que sua vida é oca,
nem aceitar que a luz não foi acesa.

Não quero ouvir seu grito com voz rouca
dizendo-se faminto e sem defesa;
antes, serei o pão à sua mesa,
serei seu anjo de feição barroca.

Em lugar de sermões, dizeres sábios
que rabisquem o choro nos seus olhos
e desenhem sorrisos nos seus lábios.

Vou ser amigo junto do seu cão,
levar seu barco longe dos escolhos
e no meu colo pôr seu coração.

Saudosa amizade - Márcia Jáber (Quinto lugar)

Sem querer, sempre volta essa memória,
perdida na lembrança empoeirada,
que esconde a lamentável, triste, história
de uma grande amizade abandonada .

Os balanços nos velhos arvoredos...
Livres pelas campinas... Pés no chão...
Unidos na amizade e nos folguedos,
mais que amigo, era tudo, era irmão!

Veio o vento da vida e nos soprou
para lados avessos do destino,
o tempo, tão veloz, nos separou

e pôs cinzas em tudo que restou.
Hoje, vive em minha alma o eu menino,
lamentando a amizade que findou.

Ilustres jurados desta edição: Edweine Loureiro, Rodrigo Poeta e Tatiana Alves.
Agradecimentos à Prefeitura de São Pedro da Aldeia, pelo apoio através da Secretaria de Cultura de São Pedro da Aldeia; agradecimentos à Editora Jogo de Palavras pelo incentivo, na pessoa do Escritor João Paulo Lopes de Meira Hergesel.
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Foram recebidas 563 inscrições. Desse total, 12 (doze) poemas classificados serão agraciados com a premiação do II PRÊMIO DE POESIA SPA.
           
A premiação se dará no primeiro semestre de 2019, em data a ser estipulada, a fim de que possam ser impressos os poemas dos poetas classificados. Cada classificado terá direito a dois exemplares da antologia de poemas e medalha de sua premiação no II PRÊMIO DE POESIA SPA.




Arena de todos, terra de ninguém


Arena de todos,
Terra de ninguém.
Espaço sem dono,
Terra sem lei.

Conflagração de desejos, turbilhão de emoções,
Despontam iras, desejos,
Muitas contradições,

Temores, medos, expostos em exaustão,
Por vezes camuflados,
Revelam inquietação.

Num momento caótico, de um mundo a mudar,
Tão veloz, tão intenso, sem direção certa a tomar.

Todos despedaçados querendo se juntar
Não encontram os pedaços que estão a buscar

Se remendam aos montes, sem nunca se servir
Se aturam não suportando nem sequer se ouvir

Fazem guerras pretextando desejos de paz
Mas por ela não lutam, nem tão pouco a trazem.

Se desmontam, remontam, inconstantemente a mudar,
De modo quase autômato, sem a inércia notar.

Vão seguindo no raso sem muito aprofundar
Nas questões mais internas que só fazem evitar.

Num constante autoengano, em autoalienação
Vão passando-se os anos,
Sem sentido ou razão

Sem sentir o concreto, em pura abstração
Sem atitudes concretas,
Só palavras em vão.

Robóticamente, já estão a viver
Não mais sendo humanos,
Mas outra espécie de ser.

Neste espaço que existe
Mesmo sem ser real
Que se tornou realidade no mundo virtual.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Os pensamentos são as causas de todas as consequências que se produzem no mundo.
Pensamentos não são imunes, nem tão pouco impunes.
É no plano mental que tudo nasce, tanto para o bem quanto para o mal, e é neste primeiro plano que devemos travar nossa batalha.
Cuide de vossa mente.

Quererás abster-te da ação?

Ficar imóvel apenas meditando sobre as causas e consequências das coisas sem atuar sobre elas não traz evolução.
Nietzsche já dizia preferir "os homens que mediram correndo" , onde num momento histórico de tantas necessidades, acreditava que qualquer ação que se fizessem em prol da humanidade seria melhor e mais digna que o mero mover de lábios, estagnados e inertes.

Queres abster-se da ação?

Para alcançar a libertação é mister alcançar o Autoconhecimento e este, é fruto de atos amoroso​s.
A inércia não colabora com a evolução, então, prossigamos na máxima do 'ora e labora' que frutifica, como filosofia milenar.

Você não caminhará se não se tornar seu próprio caminho. Seja você seu caminho.
O viver é todo ele uma experiência pedagógica. Aquele que viver um único dia sem que tenha aprendido nada com as experiências de tua vida, pode afirmar ter perdido a aula, pois se não fosse para aprender, este dia não lhe seria ofertado.

Quando nas Escrituras se afirmou: "Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida", vemos aí uma tríade indissociável, que torna Uníssona a vertente do ser que se guia por entre esses ensinamentos. E se quisermos seguir neste exemplo também devemos reconhecer a nós como verdade, caminho e vida, elementos indissociáveis de nosso ser. Este é também um Dharma budista que denota um axioma crucial à evolução humana.

Talvez seja válido mencionar que apesar de toda ação ser fruto de um pensamento (refletido, irrefletido, moral, imoral, crítico ou acrítico…), há seres que não dispõem dessa faculdade mental do pensar e que também atuam no mundo. Contudo, não é sobre estes seres e espécies que me refiro, mas sim sobre os humanos, dotados de consciência, sobretudo, da consciência da própria consciência, condição esta que já o diferencia de outros seres vivos.

Estas considerações são frutos de pensamentos e reflexões diversas, de filosofias diversas que as constituíram.
O fato de debruçar e estudar determinados aspectos teóricos, de diversas personalidades, de diversas obras, não é o que impulsiona estas ponderações, mas sim, a efetividade, em diversas medidas, em condições práticas, vendo em ação tais teorias se justificando, e assim, fazendo valer o que elas mesmo preconizam, nutrindo de sentido o que se apreende por meio teórico. A teoria é campo de ideias, mas se elas  impulsionam ações, também favorecem a prática e só na junção de ambas a efetividade de sentido se completa.

Estas considerações são mais um ensaio, no qual a apropriação particular (sempre subjetiva), de diversas vertentes, se conflagra nas conclusões que teço aqui. São escritas como "minhas verdades", coisas que acredito ser elos comuns a todos. Por tais motivos, estão aqui expostas, não para serem debatidas, mas de modo descritivo, evidenciando "constatações" que se mostram aceitáveis e válidas para mim.


Referências

 BLAVATSKY, Helena. A Voz do Silêncio. 1886.Versão portuguesa de Fernando Pessoa, coleção 'Teosófica e Esotérica',1916.

 NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: Prelúdio de uma filosofia do futuro. 2.ed. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São
Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GUNARATANA, Bhante. A Meditação da Plena Atenção. Mindfulness in Plain English . Edições Casa de Dharma, 2005.

Dorion, Louis-André. Compreender Sócrates.Editora: Vozes.



quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Empecilho


Quando eu quis partir,
Tentaram me impedir
Mas enquanto permanecia,
Ninguém esteve aqui.

Ninguém sofreu comigo
Os momentos de dor
Nem suportou o dilema
Que a mim se mostrou.

Ninguém deu atenção a uma reclamação,
Um pedido, um apelo, uma visitação.

Ninguém manifestava a mais leve emoção
Em minhas conquistas vividas até então.

Ninguém se doeu
Quando eu reclamei
De omissões e ausências
Que tanto se fez.

Ninguém fomentou
A gana de viver
Que havia presente
E se apagou sem se ver.

Ninguém exaltou a virtude do ser
Sempre relutante
Que teimava em viver

Ninguém fez menção
Do quanto vivi
De todas conquistas,
Nem do que senti.

E agora me julgam por querer partir
Já em muitos pedaços,
Fragmentos de mim.

Me impelem coragem sem reconhecer
O quão corajosa
Essa vida me fez.

Não citam as conquistas,
Virtudes, paixão.
Só criticam uma escolha
Que é de minha intenção.

Ninguém notou uma vida
Cheia de ideais,
Pois andavam ocupados
Criticando demais.

Ninguém tem propriedade de me impedir
No meu livre arbítrio,
Se não torceu por mim.

Ninguém pode ser empecilho na ida
De quem sempre na vida,
Foi tão impedida.

Ninguém pode ocultar a verdade que é
Ter parcela de culpa em cada decisão
Que outros tomam na vida
Pelo sim e pelo não.

Ninguém pode omitir
Que tentaram viver
Interferindo na vida
De um outro ser

Privando de ser pleno,
Dono de si,
De erros e acertos
Que só competem a mim.

E se fazem empecilhos
Por mais uma vez
Impondo aos outros
Sua hipócrita sensatez.

Sempre a fingir se importar com você
Se mostrando solícito
Sem de fato o ser.

Sem nenhuma ajuda na vida ofertar
Nenhum sacrifício nunca ousaram fazer

E ousados se mostram impedindo a partida
No que não lhes compete
A essa altura da vida.

E sem nenhum pudor ou preocupação
Despontam agora em minha direção
Se fazendo de solícitos, com boa intenção
Sem nunca terem atuado
Para minha consagração.

Sempre aptos
Às minhas fragilidades apontar
Sempre negando
Todas as virtudes que há.

Julgando que podem já me atingir
Nesse trem de partida
Que aguarda por mim.

Fingindo empatia ou preocupação
Me querem de fato, na mesma estação.
Por fora criticam, lamentando eu sair
Numa cena tão tétrica, por dentro a sorrir.

Falam sempre de tudo,
Mas de tudo que é mal
E não viveram nada
De minha vida real.

Não sejam empecilhos
Se sou dona de mim
De meu livre árbitro
Depende o meu existir.

Se depender de apoio ou aceitação
Pra viver  minimamente nesse mundo cão
Vão morrer frustrados,
Pois não terão isso não.

E se escolho a partida
Após muito viver
É  por não ter saída
Nesse caos que se vê

Quem encontra não partilha
O trunfo com ninguém
E torce para que não encontrem
Julgando deles merecer.

A maldade desponta nessas pedras que são
Empecilhos sem vida sugando o meu viver
Parasitas do mal travestidos de bem.

Então já não ligo,
Pois em qualquer situação
Só falam do que é mal
O criando no coração.

Eu não quero ser parte dessa conspiração,
Pois tentei sem medida
Não medir meu viver
Tentando intensamente
Zelar por meu ser.

Tropeçando nas pedras
Postas diante de mim.
Trilhei essa estrada
Que agora chega ao fim.

Nem só de dores
A viagem nessa terra se faz
E nessa passagem
o prazer jaz em paz.

E em outro Norte,
Em outra estação.
Desembarca a morte
Sem exaltação.

Lamento mais a vida
Que não pude viver
Do que a morte vivida
Que não significa morrer,

Pois morrer nessa vida
É o que já se faz
Essas almas caídas,
Que não amam jamais.


Quero partir pra outra, numa situação
Em que o desafeto
Não afete mais um coração.

Sem rancor, sem remorso,
Só insatisfação,
De ter tanta bagagem
Sem que levem em questão.

Trago eu nessa mala
O que foi possível caber
Em tão pouco espaço
Destinado a meu ser.

Não me impeçam de nada,
Não ousem impedir
Que eu siga a estrada
Que liberta daqui.

Se não respeitaram nada,
Nenhum desejo meu,
Nem meu corpo ou minha vida
Por mais que pedi,
Já não peço que façam,
Só que me deixem ir.

Não cabe a ninguém, somente a mim,
Discernir sobre a sorte
Que pretendo seguir
Que respeitem a partida
Escolhida por mim.

Se nunca ajudaram nem fizeram questão
Não atrapalhem a viagem em que estou.

Não convido comigo nesse embarque
A ninguém
Que convidei na vida,
Pra viver e não fez.

Inventaram desculpas
E mentiras sem fim
Justificaram a ausência
Que tiveram de mim.

Então não me impeçam de poder seguir
Só, em minha companhia,
Sozinha enfim.

Se veloz ou mais lenta a partida se der,
Só o que importa é que chegue
Aonde eu e Deus quiser.

Não mandarei notícias,
Não mais as terão,
Os que reclamavam
Diante de mim,
De plantão.

Sossego a todos, é o que se espera
De uma viagem longa,
Tranquila e sem guerras.

Fiquem bem, vou sem mais,
Logo vou viajar.
Que me deixem ir lá
Pra minha paz encontrar.

Diminuam as pedras
Que desejam lançar rumo a mim,
Pois não ouso jamais revidar.

Menos gritos,
Sem vozes a sobressair
Sobre o meu canto pobre
Que roubaram de mim.

A viagem mais bela
É  sempre a que está por vir.
O que fizemos já é ido,
Já não nos faz sorrir.

Mas nem precisaria tanta graça encontrar.
Se ao rir de alegria
Mais me fazem chorar.

Se o tempo passou
E o tempo não deu
Oportunidades de ter
Um tempo meu
Que não percamos mais tempo
Impedindo esse adeus.